Começa o prazo para estudantes do primeiro e segundo anos do ensino médio estadual escolherem suas opções de itinerários formativos para 2024. O prazo vai até 15 de setembro.
Em duas transmissões ao vivo para os alunos, a Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (Seduc-SP) apresentou alguns detalhes sobre a reformulação anunciada no fim de julho e respondeu a diversas perguntas enviadas por estudantes, mas deixou muitas dúvidas sem resposta.
Ainda não foi informado qual será o critério usado na seleção para as vagas, quantas horas da carga horária serão destinadas aos itinerários formativos e, dessa parte do currículo que deveria ser optativa, quantas horas eles precisarão dedicar a disciplinas obrigatórias criadas pelo secretário estadual da Educação, Renato Feder, e batizadas de “Itinerário Formativo Global”, porque valerão para todos os alunos.
Após ser questionada pelo SP2, a Seduc informou, no fim da tarde desta terça, que, “para o ensino técnico, a prioridade será para estudantes em continuidade nas escolas que receberem os cursos técnicos” e, “caso haja excesso de estudantes interessados dentro da escola ou haja vagas remanescentes para estudantes de fora da escola, a prioridade será dada a quem tiver maior pontuação em um índice que levará em conta três critérios, com peso igual para cada um: i) média das notas em português e matemática da Prova Paulista dos dois primeiros bimestres de 2023 ii) média da frequência escolar do primeiro semestre iii) menor distância entre a residência e a escola estadual de escolha (quanto menor a distância, maior a pontuação)”.
Por que o ensino médio mudou de novo?
O Novo Ensino Médio, apresentado em 2016 pelo governo de Michel Temer por medida provisória, dividiu a carga horária em duas partes: uma obrigatória, chamada Formação Geral Básica, com 60% da carga horária total dos três anos dessa etapa, e outra chamada de Itinerários Formativos, ou seja, uma formação específica que cada estudante poderia escolher, a partir de opções oferecidas pelas escolas.
E cada estado poderia definir como oferecer essas disciplinas.
São Paulo foi uma das primeiras redes estaduais a aprovar um currículo de itinerários formativos e implementar o projeto a partir de 2021, ampliando a carga horária da parte optativa ao longo da etapa e oferecendo 11 itinerários formativos mesclando áreas do conhecimento, além de um itinerário de ensino técnico com 12 opções de cursos diferentes.
Em 2023, os primeiros estudantes do Novo Ensino Médio chegaram ao último ano com a maior parte da grade horária com disciplinas que eles consideravam superficiais e distantes do conteúdo que teriam que estudar para o vestibular. Os protestos contra a nova política levaram o Ministério da Educação a lançar uma consulta pública entre abril e o início de julho.
Feder, assim que assumiu a pasta, já havia anunciado que estudaria medidas para reduzir a quantidade de itinerários, anunciou no fim de julho que, a partir de 2024, os estudantes terão apenas duas opções de itinerários de áreas do conhecimento, e 10 opções de cursos no itinerário de ensino técnico.
Reformulado após menos de três anos em vigor, o “novo” Novo Ensino Médio de São Paulo tem elementos diferentes da proposta que o Ministério da Educação quer transformar em lei.
São três itinerários no total: um de linguagens e ciências humanas, um de matemática e ciências da natureza, e um de ensino técnico. Veja abaixo os componentes de cada itinerário:
Linguagens e ciências humanas:
Liderança
Mídias digitais
Geopolítica
Oratória
Filosofia moderna
Exatas:
Robótica
Programação
Química aplicada
Biotecnologia
Empreendedorismo
Ensino técnico terá opções limitadas
O itinerário de ensino técnico tem várias opções de cursos diferentes, como agronegócio, desenvolvimento de sistemas, educação básica, enfermagem, farmácia, hotelaria e eventos, logística e vendas.
No entanto, apenas quem vai para o segundo ano do ensino médio em 2024 poderá optar por um desses cursos.
Para os alunos que vão para o terceiro ano e não fazem curso técnico, só haverá como opção os dois itinerários de áreas do conhecimento.
Procurada pela TV Globo, a Seduc informou que vai garantir a continuidade do itinerário técnico para os estudantes que atualmente fazem curso técnico no segundo ano. “Atualmente, há 32,7 mil estudantes cursando ensino técnico como parte do ensino médio, no 2ª e 3ª série. Os cerca de 20 mil estudantes que estão na 2ª série do ensino médio nessa modalidade seguirão fazendo o curso técnico como seu itinerário formativo no próximo ano”, disse a secretaria, em nota.
O ensino técnico será oferecido em cerca de 1.200 escolas, principalmente em municípios de médio e grande porte. É o dobro das 684 escolas que oferecem pelo menos um curso técnico em 2023, segundo dados obtidos pela produção da TV Globo via Lei de Acesso à Informação.
O objetivo, segundo as informações apresentadas, é chegar a 100 mil matrículas de itinerário formativo no ensino técnico no ano que vem.
Além disso, a Seduc anunciou que terá dois projetos-piloto, um de curso técnico em ciências de dados, a ser oferecido em 20 escolas em 2024, e outro com 60 turmas oferecido em parceria com o Senai. Nesse caso, os estudantes cursarão as aulas do curso técnico na sede do Senai, e as demais disciplinas em suas escolas.
Itinerário "global"
Mas parte da carga horária que seria de escolha dos estudantes vai ter disciplinas obrigatórias: o chamado “projeto de vida” terá espaço na grade curricular nos três anos do ensino médio, assim como “educação financeira”. No primeiro ano, todos os alunos terão aula de “tecnologia-programação”. No segundo e terceiro anos, aulas obrigatórias de “redação e leitura”. E, no terceiro ano, além de “projeto de vida”, “educação financeira”, “redação e leitura” e as disciplinas do itinerário formativo, os estudantes também terão aulas de “aceleração para vestibular”.
Já no texto elaborado pelo governo federal, o total de itinerários é o mesmo: três, incluindo um voltado ao ensino técnico. Mas os outros dois itinerários mantiveram a presença de linguagens e matemática: um combinado com ciências humanas e o outro, com ciência da natureza.
Pelo organograma apresentado nesta terça, estudantes da rede estadual paulista que optarem pelo itinerário de linguagens e ciências humanas, por exemplo, só terão aula de matemática dentro do currículo obrigatório, chamado de Formação Geral Básica, ou se ela for abordada em “aceleração para vestibulares”, no último ano. Quem optar pelo itinerário de exatas ficará sem aulas de linguagens dentro da parte optativa no primeiro ano.
Falta de diálogo
Mesmo tendo anunciado que estudaria a redução dos itinerários em fevereiro, estudantes criticaram o fato de não terem sido chamados para opinar sobre como a mudança seria feita.
“Uma das críticas que a gente faz a esse sistema que foi apresentado hoje foi mais uma vez ter feito esse debate desse novo sistema sem ter consultado nenhum estudante, sem ter consultado nenhum professor, sem ter consultado a sociedade como um todo”, afirmou Wendell Augusto, que cursa o segundo ano do ensino médio em uma escola estadual em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo.
Presidente do grêmio estudantil da escola e diretor da União Paulista de Estudantes Secundaristas (Upes), ele diz que, no ano passado, colocou matemática como sua primeira opção de itinerário formativo.
Mas acabou inscrito na segunda opção, um itinerário chamado “Cultura em movimento”, que mistura disciplinas de ciências humanas e linguagens. Agora, ele teme não conseguir vaga no itinerário de humanas em 2024, e acabar com uma formação superficial.
“Quebrar com o modelo que a gente vem tendo que não é bom, mas quebrar para colocar outro modelo que também não faz sentido, não vai ajudar em muita coisa”, disse ele, que foi um dos representantes discentes convidados na noite de segunda (14) para estar presente no evento na manhã desta terça.
“A galera foi pega de surpresa no início do ano com os itinerários, ano que vem vão ser pegas de surpresa de novo com essa divisória mais uma vez, com essa mudança de itinerário, com oratória, liderança, isso ou aquilo. Vai ficar meio solto, e só reforça aquilo que a gente vem pautando, que é a dificuldade de a gente conseguir ingressar na universidade”, afirmou Wendell.
Componentes defendidos pelo secretário
Das novidades apresentadas para a nova versão do Novo Ensino Médio, quase todas já haviam sido defendidas nas primeiras semanas após o secretário assumir a pasta. Na época, ele queria implementá-las já em 2024, mas apenas nas escolas em tempo integral.
Durante coletiva de imprensa no primeiro dia do ano letivo, em fevereiro, ele ofereceu sua opinião sobre o currículo do Programa de Ensino Integral (PEI):
“As escolas em tempo integral têm uma grade muito ampla, o que é positivo. Só que faltaram algumas disciplinas importantes. Por exemplo: focar em empreendedorismo, educação financeira, programação de computação, oratória... Então a gente quer colocar essas disciplinas, que a gente vê que o aluno vai usar na sua vida adulta dentro da escola em tempo integral. Então a gente vai implantar essas disciplinas durante o ano e oferecê-las no ano que vem para os alunos. Oratória, programação de computador, educação financeira e empreendedorismo vão estar disponíveis para toda as escolas em tempo integral no ano que vem.”
Pelo anúncio feito em julho, todos os estudantes do ensino médio, não só os do PEI, terão três anos de aulas de educação financeira e um ano de programação. Já os estudantes que optarem pelo itinerário de humanas terão dois anos de aulas de oratória. Quem for para o itinerário de exatas terá aulas de empreendedorismo no segundo e terceiro anos.
Oratória era disciplina há 200 anos, diz especialista
Em nota à TV Globo sobre a adoção de disciplina como oratória e liderança, a Seduc-SP informou que “as competências gerais 5 e 7 da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) abordam as habilidades no uso de diferentes linguagens e argumentação”, e que “esses são os princípios que fundamentam a inclusão do componente de Oratória e Argumentação no Itinerário Formativo de Linguagens e Ciências Humanas”.
Disse, ainda, que, “a competência geral 5 da BNCC também ressalta a importância do protagonismo e da autoria na vida social e coletiva. O protagonismo juvenil é um dos pontos-chave para impulsionar o desenvolvimento dos jovens, o que justifica a inclusão do componente de Liderança no itinerário”.
Mas, para a professora Márcia Jacomini, especialista em política e gestão educacionais e docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é preciso esperar a divulgação do conteúdo das aulas dessas disciplinas.
“Não tem o menor sentido o ensino de oratória no século 21 para alunos do ensino médio. Nem na universidade você tem, na formação de professores de letras, você tem disciplina específica de oratória”, explicou ela. “Oratória foi uma disciplina de dois séculos atrás. Então é completamente inadequado.”